quinta-feira, 31 de julho de 2014

Quando o Galo Cantou


O galo não canta. Galo não há. Aqui, apenas uma cama, cobertas amassadas e teu corpo despido de pudores. O meu, encaixado, passa uma perna por dentre as tuas. Teus pés escapam com o meu dos lençóis, enquanto uma das minhas mãos se estica por cima do teu lado, quedando-se por sobre a tua. Meu outro braço por baixo do nosso travesseiro compartilhado.
Abro os olhos: não é sonho. Fecho-os, sinto-te o cheiro, seguro tua mão por baixo da minha. Abro-os novamente quando te mexes. Apenas um pouco. Adormecida com ar de riso cuja visão me embriaga. Trago a mão para tua nuca exposta pelos cabelos desgrenhados no travesseiro. Respiro no teu ouvido e tu, depois de um bocejo, respondes gemendo e fazendo força com os pés tanto para se esticar quanto para prender o meu. Teu braço passa sobre minha cintura e engancha-se nas minhas costas a fim de deixar-me bem rente a ti, quase nos confundindo. Sorris, ainda de olhos fechados, quando arrasto minhas unhas por teu pescoço até a nuca. Riso maluco, riso de quem quer. Como quisemos na noite anterior. Como queremos.

*     *     *

Eu tive certeza de que aquela noite não teria fim. A mesma que eu tinha de que nunca mais nos desgrudaríamos. Aquela certeza dos que experimentam a singular capacidade dos desejos de emperrar ponteiros e confundir cartógrafos.
Relógio para um lado, teu vestido para baixo, minhas roupas em qualquer lugar bem longe do corpo. Meu corpo em todo lugar em volta do teu.
Com o tempo há muito parado, a noite nos velou por muito amor. Enfim, porém, desistiu de nos acompanhar e decidiu partir de tão cansada. Para nós, no entanto, não havia noite ou dia, sol, céu índigo ou Atlântico Sul! Mesmo quando a luz esgueirou-se para dentro do quarto, não pude vê-la, apenas teus pelos dotados de luz própria e as gotas de suor que eles ciceroneavam por toda a extensão das tuas pernas.

*     *     *

Tanto desejo... mais vontade! Beijo-te as panturrilhas e mordo-te as coxas: te quero devorar! Você me segura pelos cabelos – sem me conter! Não poderia, nada me pode parar! Não agora, nada aqui, não no nosso lugar. Não quando o que você menos quer é que eu pare: risos com que me acaricias os ouvidos, pernas com que me abraças o tronco, seios com que te espalhas sobre mim e me apertas e mordes e marcas e nos amamos!
“Não, não se pode. Ninguém pode ser tão feliz!”. Teus olhos brilham vezes a fio a cada palavra. E eu, impotente de qualquer coisa senão sorrir e encarar-te, deito a cabeça ao lado do teu pescoço por querer – sem merecer – nada além da paz do teu cheiro suado depois de amar.
“Nós temos que ir.”
“Temos.”
“Já é dia.”
“Claro.”
“Mas...”
“O que?!”
“Tudo ainda tão calmo.”
“Não temos?!”
“Temos!”
“Então?!”
“Deixa.”
“O que?”
“Cantar o galo.”

Ainda não olhei pela janela para saber de galos ou dromedários. Na realidade, cheguei a aproximar-me da varanda na véspera, quando teus olhos fitavam qualquer coisa do lado de fora e eu resolvi te mostrar como nada seria mais interessante que nós dois.
Nós que aqui estamos. Em paz. Sem cantos, galos ou tic-tac’s. Nós que aqui somos. Só nós. Nada mais.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

whatever works


Tradução livre: “Eu odeio as festas de ano novo, todos loucos pra se divertir, tentando comemorar de algum jeitinho patético. Comemorar o que? Um passo a mais pro caixão? É por isso que eu nunca me canso de dizer: qualquer amor que você possa dar e receber, toda felicidade que você possa conseguir ou oferecer, qualquer bem, ainda que mínimo e circunstancial, tudo pode funcionar! Mas não se engane, fazer com que deem certo de forma alguma cabe à sua própria ingenuidade humana, pois uma parte maior da sua vida do que você gostaria de admitir resume-se à sorte. Nossa, você sabe as chances de somente aquele esperma do seu pai, entre bilhões, encontrar o único óvulo que formou você?! Não pense nisso ou você terá um ataque de pânico!”


Tudo pode dar certo. Pode. Mas, se pode, então pode também dar errado. A sorte nos lança na vida com um grau de certeza inversamente proporcional ao de aleatoriedade. Em outras palavras, enquanto o mais próximo futuro é completamente incerto e imprevisível, ao se tornar presente, num dia, num suspiro, um instante, praticamente tudo é possível transformar-se em realidade. Num sopro da mais padrão normalidade, tudo pode mudar, ou apenas algumas coisas. Pode morrer, renascer, virar de ponta cabeça ou até continuar na mais imutável inércia dos fatos.

Há quem acredite que quanto maior o grau de incerteza, mais vale à pena viver. Pra outros, porém, pensar que da vida não se tem o controle dá calafrios. É bom, no entanto, que todos se conformem com a realidade dos fatos: em cada instante de um novo dia há, sempre e sem exceção, dois elementos presentes, duas forças agindo concomitantes e complementares: sorte e escolha. O primeiro é invariável, a presença implacável do que nos foge ao controle. É o aleatório. O segundo, por sua vez, é a manifestação da nossa vontade. Nós sempre temos opções – mesmo que nenhuma agrade. E cada novo caminho tomado nos levará a novos e estes a outros ainda e outros e outros e... Sorte e escolha, ambas sempre presentes, condicionam-se mutuamente e o resultado dessa equação é o que costumamos chamar de “vida”.

Óbvio que, pra poder escolher entre dois caminhos de uma bifurcação, ela precisa antes existir e quem a faz aparecer é a sorte. Claro também que a gente constrói nossa história a partir das próprias escolhas, mas não se engane: se, por qualquer acaso, teu pai tivesse demorado alguns segundos a mais pra ejacular àquela noite, não seria você, mas outro o espermatozoide “vencedor”. Da mesma forma como seria se você (pelo menos sua metade paterna) não tivesse se esforçado tanto. É isso: mesmo quando a gente tem apenas meia dose de cromossomos as duas já estão presentes: a tal da sorte e sua companheira, a escolha.

Quer dizer, sorte, deus, destino, nomes diversos pro mesmo evento: a manifestação de nossa racionalidade buscando alguma razão que justifique a aleatoriedade dos fatos da vida. Talvez, então, a gente devesse deixar de ser tão racional e, quem sabe, não aceitássemos melhor a vida bem do jeito que ela é: uma sucessão de razões improváveis loucamente concatenadas e fins absurdamente imprevisíveis. Por sinal: “fins”? Fora a morte, tudo na vida parece ser nada além de começo. Nada, contudo, começa sem que nós o desejemos e façamos por onde começar.

O melhor exemplo? Quem adivinha? Ah, também não é tão difícil: o amor. Amar é assim, ninguém pode escolher quando e por quem se apaixonar, mas não há quem ame sem decidir abrir-se para amar. Amor é uma escolha, portanto? Não! De jeito nenhum! Cruz credo! Amor não é uma escolha, mas deixar de amar é. Fechar-se pro amor – ou dele fugir – encontra-se na esfera da vontade própria tanto o quanto é aleatória a mais patética paixão. E isto, ao contrário do que dizem os homens de vestido – quer chamemos tais panos de toga ou batina –, não acontece num simples momento, ao menos não num momento senão por dia: amar é uma escolha diária, de preferência matinal – a não ser que você seja daqueles seres soturnos, que pra se transformar em coruja faltam apenas olhos esbugalhados e meia dúzia de penas. Abrir-se ao afeto, à vivência dos relacionamentos, deixar entrar o desejo de amar e ser feliz é sentido, fim e, sobretudo, princípio fundamental e contínuo de cada dia de nossas vidas. Por isso, como disse o sábio ranzinza no filme acima:

Resta-nos abrimos as trancas pra quando o amor chegar, ainda que da menos esperada dentre as imprevisíveis formas, vá entrando sem sequer ter que bater à porta.

domingo, 24 de julho de 2011

Carina e Thor

Distância. Nem é tão longa a palavra, bem ao contrário daquilo que descreve. Quer dizer, também não é necessariamente grande seu objeto: depende do quanto se deseja o que ele separa. Há vezes em que um cômodo, o corredor é suficiente pra fazer-nos classificar como imensa a distância até o quarto da mãe, bem ao contrário de quando ela nos chama de lá pra dar uma bronca. Por vezes, até menos: distância é função direta da saudade.

Curioso pensar que também o inverso é verdade: ao contrário do que se tanto costuma dizer, saudade depende mais da distância que do tempo há que se está afastado. Pelo menos em se tratando de curtos períodos. Um dia, dois, uma semana... quando chegam os meses, talvez a história já mude...

Calculando pela data do casamento, em dezembro, somado à viagem curta de logo depois, acho que eles só tomaram coragem de atravessar o Atlântico em fins de janeiro ou já fevereiro. Confesso estar ansioso pra saber quando vem a coragem de voltar! Coragem, talvez vontade. Mas nem sempre vontade basta ou basta apenas ao se tratar de maior vontade que qualquer outra. Pelo que conheço de Carina e Thor – que muitos diriam ser pouco em razão do tempo ou qualquer outro critério desprezível – não lhes falta vontade de sorrir! Ao menos nunca faltou a cada vez os vi juntos, até mau humorada, até cansado, mesmo de ressaca de uma bela noite bela. Espero, então, que de sorrisos estejam pincelando as ressacas desses vinhos italianos, cujas bebedeiras com certeza são as mais divertidas e de que eu sinto tanta falta mesmo delas não participando...

Pode nem parecer – eu não sei se, no lugar deles, acreditaria no que escrevo – mas quando uma criança sente falta da mãe, o que faz? Corre atrás dela, esperneia, chora, lhe chama a atenção de qualquer jeito. A mãe, porém, é pra criança a inteireza de seu mundo, a fonte do seu aconchego, alimento, carinho e proteção. Pois é, eu não tenho esperneado ultimamente, não que eu lembre, nem sequer ao ver as fotos das viagens de Carina e Thor, sentindo inveja da gente de sorte que lhes teve a companhia numa eurotrip, ou quando me pego sorrindo de como era divertida a mais sacal manhã de um sábado abusado, alla lezione d’italiano. É, acho que isso significa que Carina e Thor não são minha mãe... que bom!

Não que mãe seja ruim, mas uma é já o suficiente. Não, Carina surgiu na minha vida como uma irmã, logo eu que sou gêmeo, já nasci com uma irmã a tiracolo – e outra mais velha a nos esperar, recebo outra de bom grado da vida num tempo curto, bem curto. E sequer como mãe, eu não simplesmente a "recebi": ou ela acha que seu carisma é irresistível?! Não, Carina carina, mais que imposição circunstancial da vida, você me foi uma escolha. Eu poderia ter me afastado, tê-los ignorado, não lhes dado atenção... quer dizer, quando vejo as fotos dos meus afilhados, chego a duvidar de que poderia... O fato é que também eu lhes fui uma escolha. Talvez nem tão acertada, com certeza ausente, mas que os ama como os amigos que são, como irmã e cunhado (no melhor sentido que esse termo tiver, Thor!) e que, comigo, quero carregar até longe, até ausente, até um oceano distantes.

: distância é como calor, falando pode até parecer ruim, mas só quando existe acima do razoável incomoda de fato. Quem nunca se apertou numa sala pequena, num show, estádio de futebol, no carnaval, quem nunca quase sufocou com a falta de espaço diretamente proporcional à quantidade de gente que atire a primeira pedra! Quem nunca sentiu falta de pessoas que ama, então, nem fale...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O Especialista

O velho mogno escuro jamais havia ressoado daquela forma. Não somente os passos firmes dos sapatos faziam tremer a madeira do chão, mas a tensão no ambiente. Assim como o chão, as paredes, as cortinas, portas e janelas, tudo e todos os presentes na ante-sala pareciam compartilhar da mesma apreensão, o que transformava o ambiente repleto de ar num quase vácuo em que o mais difícil era respirar.

Naquela ante-sala, só os homens estavam, à exceção da ama. Permitiu o Senhor da casa que ela permanecesse recostada numa cadeira no canto, próxima à parede, em razão de haver sido a primeira a presenciar o ocorrido: quando entrou no quarto da patroa cantarolando como sempre, mal sabia o que lhe esperava, e qual não foi seu horror quando viu sua senhora estirada na cama manchada de sangue.

Talvez, mais apropriado falar em “ordem” que em “permissão” do Senhor. Afinal, quando acudiram todos aos gritos da mucama, o dono da casa grande mandou sair a negra dos aposentos de sua senhora e, na sua frieza habitual que já nem mais chocava os parentes e empregados, ordenou que o especialista fosse trazido imediatamente. “Pouco me importam as horas que sejam, se é noite escura ou qualquer coisa, tragam-no já, agora! Só ele pode tomar as devidas providências”.

Apesar da hora avançada, ele apareceu impecável na casa , o especialista. O paletó era marrom escuro, mas foi logo tirado na antes-sala, assim que ele falou com o Senhor. “Pode deixar, nada me há de passar despercebido. Nada terá sido em vão”. Com um aperto de mão selaram o acordo e os passos do especialista ressoaram ainda, até que a porta do quarto da senhora fechada atrás dele fê-los emudecerem, bem como todos os homens presentes na ante-sala já estavam.

O tempo parecia não passar. O tio enrolava os bigodes, o primo tentava encontrar algum cabelo na careca que pudesse também ele enrolar. O Senhor já não suportava mais a enrolação lá dentro do quarto, queria saber logo e tudo, queria saber de sua Senhora!, mas o que quer que acontecesse lá dentro, a porta pesada o impedia de ouvir.

Gritos, urros, choro: os únicos sons capazes de ultrapassar as paredes e a porta de madeira maciça somente deram as caras ao final, logo antes de que o especialista suado e com as mãos sujas de sangue aparecesse através da porta dizendo, enfim: “nasceu, meu Senhor. Pode se acalmar, pois seu filho, enfim, nasceu”.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ninguém é indispensável


Acreditar que ninguém é indispensável é um ato de amor. Não sei se Lord Byron concordaria com isso porém, em caso negativo, eu lhe contaria um segredo: mesmo depois de ele morrer, o mundo não parou de girar.

Se, pra cada morte de um ser humano, outro se matasse, a população mundial não teria atingido as cifras a que chegou. E, ainda que o mundo não seja lá o lugar mais tranquilo e feliz, com certeza seria, hoje, mais sombrio e melancólico, nessas “circunstâncias suicidas”. O fato é que não é assim, a vida não é assim, pois os dias dos que ficam continuam nascendo e se pondo, ainda quando os outros se vão.

E isso vale não só pra morte do corpo, mas pra dos sentimentos, da memória, pra quando alguém parte, sai de casa, viaja pra voltar ninguém sabe quando. E os que ficam? Bom, esses, no último momento, quando em vez de obstarem a partida do outro, apenas o abraçam e beijam e desejam boa viagem, esses demonstram aí todo o seu amor.

Não há amor sem liberdade. E dizer isso não torna este texto uma cartilha pró-relacionamentos abertos, mesmo porque decidir relacionar-se ou não com alguém sem as amarras da fidelidade é um exercício, no mínimo, da liberdade de pactuar. A liberdade numa relação conjugal é bem mais ampla que o simples conceito de fidelidade. É reconhecer em quem se ama um inteiro, uma pessoa, linda exatamente por ser completa. Quem quer uma “metade” de laranja pra se completar deve começar procurando-a numa sessão de psicoterapia, pois nenhuma relação que não entre “inteiros” pode ser saudável.

Ser menos carente, tornar-se menos dependente do outro é escolher amá-lo. Reconhece-lo como ser humano completo e, nessa completude, tão encantador a ponto de nos fazer apaixonar, é deseja-lo feliz. E quando fazemos isso, só quando queremos a felicidade de alguém é que podemos iniciar a felicidade conjunta, conjugal ou não.

Prender o outro, fazer dele sua posse, portanto, faz tão pouco sentido quanto querer estar com ele sem que ele também o deseje. Ao contrário, aceitar a possibilidade sempre presente da partida, de que ele nos deixe é desejar o seu bem, posto estarmos escolhendo a sua felicidade, pois permanecemos juntos acima de tudo porque a gente tem vontade e quer um ao outro e assim somos felizes; além de ser ato de amor próprio, porque afrente de qualquer vontade alheia, colocamos o nosso desejo de sorrir e reconhecemos que, pra isso, melhor estar sozinho que com quem não nos queira bem.

Pra quem, enfim, livra-se do peso de se preocupar com a possível partida, com a possibilidade do fim, o dia costuma amanhecer mais claro. Não por maior incidência dos raios solares, mas pelo sentimento que de repente surge de ser a vida boa agora, neste instante, bem quando devemos aproveitá-la, pois o amanhã importa tão pouco quanto tudo aquilo que não nos cabe conhecer. Mais importante do que prever o futuro torna-se viver o presente. Antes de pensar na partida, aproveitar o agora, quando estamos juntos e felizes. É a leveza do verdadeiro afeto, que não demanda nomes, assinaturas ou instituições pra existir. É a tranquilidade de quem está próximo porque quer e sabe ser a mesma coisa com os que o cercam. É a vontade de ter prazer despida de receios, em meio a sorrisos, amigos e conversas fiadas, pequenos ou grandes prazeres ao longo de uma longa noite que pouco importa quando vai terminar, mais importa é que já teve início.

Se amanhã a gente ainda pode amar, hoje faço hora extra no trabalho. Mas se tudo sempre pode acabar em despedida, melhor comprar-lhe logo aquele buquê de rosas pra ver abrir-se seu sorriso lindo mais uma vez. Melhor viver agora, antes que seja tarde.

Vida

Queria que a vida fosse pra além de uma palavra. Mais que um conceito frio apenas. E mais que tão somente sonho e imaginação fértil no meio de uma aula chata. Queria que a vida cruzasse a fronteira da fantasia com a realidade, da linguagem com os fatos: devo admitir que acho muito mais gostoso beber do que simplesmente dizer “café”.

Não quero a vida emoldurada na parede numa foto bonita de cartão postal. Claro, a gente sempre pode pegar um avião e ir viver ao vivo a paisagem. Mas nem todo mundo tem condições de se aventurar até os Alpes Suíços. E desde quando isso é a tal da vida, voar por meio mundo pra chegar numas montanhas bonitinhas? Não quero uma vida bela ou feia, prefiro-a viva. Viva de tal forma que quatro letras jamais serão capazes de conceituar.

Podia até lançar aqui um manifesto pela exclusão da palavra “vida” do dicionário brasileiro. A menina, em vez de viver, sorri. O rapaz, tadinho, chora. A planta segue o sol, o cachorro corre rápido, o peixe nada, nada e não sai da água. O pássaro voa, o avião também, mas só porque tem um piloto que o comanda. A criança brinca, a mãe trabalha, o pai cozinha (família moderna, hein?) e à noite os dois fazem mais filhinhos – mas disso não convém entrar em detalhes.

Ao contrário do que se diz, as estrelas não nascem; apenas brilham bonitas no céu. Às estrelas, não tem avião que nos leve. Acho que pra elas, então, se pode abrir uma exceção: apesar de estarem mais longe que as montanhas da Suíça, estamos o mais perto delas a que se pode chegar. Pois a distância entre um par de olhos e o brilho de uma estrela se mede menos em anos-luz, mais nas emoções por ela inspiradas.

E se ninguém “vive”, a gente não precisaria mais “morrer”. Melhor seria apenas deixar de sentir, falar, correr, sorrir, comer, fazer amor etc. Com certeza o processo lingüístico e conceitual entre sair do “uga-uga” primitivo e chegar à “vida” não foi simples ou curto. E, um palpite que me veio à cabeça: talvez a gente só tenha inventado o termo “vida” quando se deu conta de que o nosso dia-a-dia agradável – ou nem tanto! – um dia acabava, terminava assim de repente. Parece até que a vida nos brotou da morte. Pois aqui eu digo sem medo: não é, então, essa a “vida” que eu quero.

Uma vida menos morte, menos conceito e mais acontecimento. Uma vida de tato e sensações, de experimentação inominada de tudo aquilo que se possa ver, ouvir, provar, vida que tanto faça se cheiro de flor ou de esgoto, desde que, mais que palavra e descrição, seja cheiro de verdade.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sal

Um grande amigo, certa vez, me disse pra escrever uma história sobre o fogão e o micro-ondas. Na verdade, sobre o conflito de gerações: a sopa que, por tanto tempo, saiu do forno mais quente nas bordas que no meio, agora, no micro-ondas, esquenta em sentido inverso, de dentro pra fora.

Ainda não escrevi o texto, mas hoje à tarde, ao escolher a cafeteira clássica, aquela do fogão, em detrimento do micro-ondas pra esquentar água pro café, lembrei do que ele me havia dito. Sorri e pensei prontamente em escrever, mas desisti, ao menos por enquanto, pois parece que a sugestão dele faz da crônica tão minha quanto sua. E ele, neste momento, infelizmente ele não poderia ler a crônica nossa.

Amanhã ou depois vai ser diferente: hoje ele já respira sem máquinas, depois vai deixar o coma induzido, sem mais sedativos ou qualquer coisa que não lhe permita acordar, mas daí vai levar um tempo até ir pro quarto, começar a ler e, enfim, voltar a sorrir – espero que não necessariamente nessa ordem. E isso espero por desejar que não leve muito tempo até nós podermos enxergar novamente seu sorriso, pois pensando de maneira bem egoísta: a vida de nenhum de nós não é a mesma sem um sorriso daqueles aparecendo de repente!

Mas isso consola, essa história de amanhã ser sempre diferente. Ontem o foi de hoje, por que amanhã também não será? Afinal, foi ele mesmo, o meu grande amigo, quem me disse: antes, a sopa quente nas bordas; hoje, fumaçando pelo centro. A vida é assim, feita de ontem e hoje e, bem desejamos, amanhã. Não que eu queira viver de passado ou futuro, de memória ou expectativa. Não que eu negue a maior verdade conhecida – de que a vida é monopólio do presente. Ainda assim, porém, quando a vida vacila sobre uma cama de hospital, a gente termina por poder pouco, quase nada além de esperar.

É quando o tempo parece mesmo haver parado, assim como o mundo deixado de girar. Por alguns instantes, alguns dias... O tempo exato eu não sei, mas tenho crescentes esperanças de que, dentro em breve, a autoridade de um jaleco branco lhe conceda alta e a vida, desde antes, já o tenha feito voltar a sorrir. Nesse dia, sim, no dia em que eu lhe enxergar novamente o sorriso, garanto que a vida volta aos seus mais pateticamente belos momentos do singelo, complexo e eterno presente. Ele, meu amigo, meu irmão, sabe bem disso e deseja a vida como ninguém!

Até lá, estamos no aguardo, esperamos, rogamos, torcemos. Força, Sal!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Enquanto isso, na Cidade Proibida...

Na Cidade Proibida, o Imperador Xi-cezár Peluzzô chamou os amiguinhos pra brincar de rei. Xan-Tofólli, Xun-Mendêz e Xong-Mellô desenrolaram um pergaminho. Em cima da mesa, agora, se estendia um mapa delimitando cada região do império chinês. Pegaram uns dados, umas pecinhas e começaram a jogar. “3 contra 2 na Manchúria”, “2 contra 1 de Taiwan pra Xangai”. Lá pras tantas, porém, Huang-Barbosa, Hiayres-Britto e Hawan-Dovsky, três dos poucos que haviam tido permissão e curiosidade de pisarem fora das Muralhas do Dragão começaram a temer pelos barulhos que vinham da Pequim em pavorosa. Hicarmin-Lucí e Hellen-Graxie alertaram aos outros, mas Xinmarcau-Rélio riu e o imperador disse: “Eu sou o Deus, a lei sou eu”.

Havia anos que era assim: lá dentro o imperador brincava, lá fora o japonês mandava.

Até que, um belo dia, Mao apareceu e convenceu um povo cansado de ser mudo a invadir a Cidade. Fizeram um estardalhaço, cortaram umas cabeças e acabaram com a festa de todo mundo.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Céu de estrela

Minha casa de pedra e eu, aqui, desejando aquele céu feito de estrela. Lá fora chove, as nuvens berrando brabas afogam tudo, do chão ao firmamento. Eu fecho a janela, pois mãe não me deixa sair. “Menino, olha a água! Menino, olha o frio! Menino, olha a gripe!”. Sento na cama e umas lágrimas escorrem: “Menino quer olhar estrela, mãe!”, mas mãe não entende...

A luz cai. Menino sozinho no quarto tem medo de escuro, mas mãe não gosta de ser perturbada à noite. Acendo uma vela. Sem luz da janela, o fogo brilha refletido nas lágrimas espalhadas pelo chão. Menino chora mais e mais. Mas pára e sorri ao perceber que o chão duro do seu quarto se transformou, agora, num céu bem bonito, cheinho de estrela.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Texto pelo casamento de Larinha e Vitor Hugo



Do amor ninguém foge. O amor ninguém inventa. A amar ninguém ensina, mas a gente aprende. De um jeito ou de outro, aprende. Claro, porque tanto o quanto sentimento, amor é escolha. Igual a tudo na vida, amor é sorte e é também vontade. Talvez a gente não ame sem que a vida nos permita, mas com certeza ninguém pode amar se ao amor não se abrir, não há quem ame sem se dispor a amar.

Na mais aleatória conjuntura de fatos e acontecimentos, a gente se encontra. Por uma série improvável de acasos, a gente se encanta e, às vezes contra a própria vontade, nos apaixonamos. O responsável pelo encontro pode ser um tropeço, uma gafe, até uma fossa, a frustração de um amor que passou. Há vezes em que o amor até parece um grande palhaço: gosta de brincar, fazer joguinhos, adora aparecer de repente num corredor de supermercado, numa sala de aula, na fila do banco ou esbarrar na gente andando no meio da rua. Na internet, na casa de amigos, na festa de aniversário da prima de 2º grau de cuja existência você nem sabia até uma semana atrás.

Pouco importa onde ou quando, o amor acontece. Sempre e pra todos e todas. E, daí, resta a escolha entre amar ou deixar de viver. Quando acaba um relacionamento, dói, a gente sofre e, se for grave, até diz que não querer – nunca mais! – amar. Mentira. Mais sofre quem mais amou e esse pode viver sem tudo, só não sem o amor. E quando vem a paixão, quando os sininhos tocam, quando o mundo fica mais bonito até sem nada haver mudado, quando o amor, enfim, começa, sempre parece que tudo pelo que passamos valeu à pena.

Por isso é bom dizer: acredite no amor. Até sem fé, até quando não puder acreditar na própria crença, não descreia do amor, porque amar sempre vale mais à pena do não acreditar. De tudo que há de grande e pequeno na vida, o que mais vale a pena é o amor.

Comemorar o encontro de pessoas que se amam faz, então, todo o sentido. Se bom na vida é amar, bom na vida é sorrir. A gente pode descrer de tudo, pode esquecer, não lembrar, deixar de saber. Ninguém conhece mesmo o sentido da vida. Mas uma certeza jamais deixa de estar presente, ainda que lá no fundo, mesmo escondia, até quando a procuramos sem encontrar ou negamos sua existência: mais que a certeza da morte, a gente tem convicção de que nasceu pra ser feliz.

Como, por que, quando encontramos a felicidade?, isso ninguém pode responder. Mas não há dúvidas de que nada rima mais com “felicidade” do que “amor”, do que “amar”. “Sinônimo de amor é amar”, canta Zé Ramalho. Amar, verbo, atitude, amar com vontade, com gana e desejo. Agir como quem não apenas espera a felicidade, mas a constrói, dia a dia, ao acordar num beijo a pessoa amada, ao dormir abraçados, ao ter certeza de que ninguém é feliz sem optar pelo amor. E o mais bonito é quando a gente pode olhar pro lado e perceber que até o amor pode ter nome e sobrenome e corpo e pelos e tantas qualidades quanto defeitos. Mas, e daí? De que tanto importam os tantos defeitos quando a gente continua a escolher o amor? De que importa todo o resto, se a gente se dispõe a amar?!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Perdão




De nada adianta forçar: o perdão é como o amor, simplesmente acontece. Por isso, quem me magoou eu não perdôo, ou perdôo, tanto faz: desde que eu não lhe falte com respeito, ninguém tem nada com isso.

“Mas você deve perdoar, querido. Afinal, sem perdoar, ninguém se liberta”. Deixa eu ver se entendi: sem perdoar eu não alcanço a liberdade; logo, se eu não pretendo perdoar, preciso ser coagido à liberdade?! Quem nos diz ser “devido” amar, perdoar ou fazer qualquer dessas coisas cuja escolha não nos é facultada (não sei o seu, mas meu coração é bastante intransigente, o suficiente pra não pedir minha opinião: quando percebo, já estou perdidamente apaixonado), não faz muito diferente de uma superpotência mundial forçando uma população a tornar-se livre. Perguntemos aos ocupantes da casa branca: como se institui pelas armas um regime democrático? Eu mesmo respondo: da mesma maneira que um moralista querendo instituir, pela razão, o perdão no meu peito.

Perdoem-me os cristãos, mas eu não tenho que perdoar. “não tenho que”, do verbo “não ser obrigado a”. Ao contrário do que muitos preferem pensar, perdoar não é uma escolha – sobretudo não é simples! A gente até diz “eu te perdôo”. Mas tanto quanto uma mulher ciumenta esperneia a grande mentira de que jamais quer ver seu homem novamente (“aquele cafajeste! Nem pintado de ouro!”), nem sempre perdoamos quando afirmamos perdoar.

O perdão pode não ser um afeto, mas é dos afetos pelo menos uma consequência. Se é fato que a gente não “sente” ou “deixa de sentir” o perdão, também é verdade que ninguém perdoa com rancor, mágoa ou ressentimento. Claro que podemos fingir, jurar de pés juntos um perdão floreado, mas daí até perdoar de verdade existe uma estrada torta de diferenças. “Como” a gente chega a perdoar eu não sei; mas “quando”, é bem na hora em que esquecemos de ter raiva, quando a gente se dá conta, de repente, de que não mais nos importamos com o que tenha acontecido: mesmo sem poder lembrar em qual dia ou instante, descobrimos que, sim, como o mais natural dos eventos banais – e não mais que de repente! –, operou-se o tal milagre da transformação do rancor em desinteresse, talvez até mesmo em perdão.

domingo, 8 de agosto de 2010

É tempo!




O tempo é uma invenção de quem tem preguiça de viver. E a gente fala dele como se tivesse alguma autoridade. Por sinal, usamos o próprio tempo como argumento de autoridade:

“Quantos anos você tem mesmo? Ah, só? Relaxe, você ainda tem muito pra viver...”.

Tenho? Engraçado que, se por um acaso do destino (livrai-nos do mal, amém!), amanhã eu morrer, discursarão à cabeceira do meu caixão: “foi tão maduro, um homem íntegro, completo”. Do dia pra noite, amadurecido, quase santo. Quer dizer que é a morte quem nos faz amadurecer? Se for assim, quero ser criança eternamente!

Até parece que a vida é mesmo contada em tempo. Dentre os minutos, os únicos que realmente importam são os que precedem o fim do expediente de trabalho. Daí nossa ansiedade parece tão grande que deixa os ponteiros mais pesados, demorando tanto, quase que não giram mais. Fora esses minutos, porém, o que vale de verdade são os momentos bons. Bons não, únicos! Não precisam ser grandiosos no sentido clássico do termo, mas têm que ser dos maiores pra quem os vive. São os momentos eternos, tão incríveis que sempre existiram e pra sempre o farão, sem poderem ser compactados em molduras temporais: um beijo inesquecível, a primeira vez em que os dois se entreolharam, um casal desnudamente apaixonado abraçado frente a um espelho do motel pra que foram fugindo do mundo que os ficava azucrinando, uma caixinha encontrada no rodapé do seu banheiro guardando lembranças de uma criança que ali morou 40 anos antes (quem não entendeu o último exemplo assista a “O Fabuloso Destino de Amélie Poulin”). Momentos que não têm fim, por não terem início, porque nossa vida praticamente foi criada em função deles, porque precisávamos vivê-los. Não serão esquecidos, nem lembrados, apenas vividos na eternidade em que os homens e mulheres amam e, em razão disso, não precisam se limitar à ficção do tal “tempo”.

A última vez em que terminei um relacionamento, eu bêbado, conversando com um ser barrigudo, tão embriagado quanto e bastante mais velho, ele me disse: “olha a tua idade, você viveu tão pouco. Isso nem foi amor. Ainda tas longe de encontrar um amor de verdade, meu caro, bem longe”. Praquela barriga gorda, eu respondi: “se o amor presente não for o maior, o último, nem amor é”. Apesar de achar que eu devesse ter dito: “pior que eu é você, com toda essa idade, ainda não ter conhecido o amor”. Sim, porque alguém que fale o que saiu da boca dele, sabe tudo, menos o que é amar. Desde quando o destino nos apresenta o afeto a partir do tempo?! Ao nos criar, então, ele fala assim: “você é padrão, só com os 35; você, vai um pouquinho antes, 33, a idade de cristo; ah, você é um sortudo, com 22 já vai amar, ao contrário daquele pobre coitado... iiih, esse é só lá pros 49, mas não tem do que reclamar, pior é quem nunca vai encontrar o amor”.

Não posso falar com propriedade se a vida é uma intercessão de lágrimas num fundo de alegrias ou vice-versa. Não tenho certeza, mas acho que a zebra é branca com listras pretas, né? Pois bem, e quanto à vida: é feliz intercalada por momentos tristes, ou é toda de tristeza com algumas manchas de felicidade aparecendo pelo caminho?! Eu não tenho a resposta. E cada um acredita no que quiser. Mas tenho uma certeza: qualquer das duas opções, nenhuma é condicionada pelo tempo. Há vezes em que um dia é mais eterno que todo o resto. Às vezes, vivemos muito, mas em muito pouco tempo. Um amor de uma curta viagem inesquecível por toda a vida, mesmo quando acordamos dia-a-dia ao lado de outro alguém; ou uma pessoa que no espaço de um mês nos marque a vida até o momento da nossa morte...

Só posso esperar que cada vez mais os dias nos sejam assim, generosos, hoje tão ou mais eternos que o mais eterno dos outros dias.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

No bar com Ares e Apolo

‘Bom na vida é sonhar.’

‘Bom na vida é a vida!’

‘Sim, claro, e os sonhos não lhe são parte?’

‘Tão importantes quanto batata-frita. Estas, por exemplo, estão ótimas! Você devia provar.’

‘Eu devia emagrecer, isso sim!”

‘Deixa disso, irmão.”

‘Você diz isso porque até Afrodite caiu nos teus encantos.’

‘Ha-ha! Fazer o que se eu sou assim tão irresistível?!’

‘Tentar seguir seus passos!’

‘Ah, mas foi muito trabalho duro pra moldar estes músculos.’

‘Vejo bem quanto trabalho não é comer uma porção de batata-frita. Ha-ha!’

‘Se você largasse a harpa e viesse comigo à guerra não precisaria se preocupar com o que come!’

‘Sabes que sou mais dado aos versos.’

‘Então rogue a Zeus por um milagre, porque nada mais vai dar jeito nesse corpo mirrado.’

‘Calma, também não é assim...’

‘... Claro que é! Por sinal, sempre é: você é assim.’

‘O que você está insinuando?!’

‘Não é insinuação: você só sabe falar, nunca faz nada.’

‘O que faço é sonhar.’

‘Não é muito diferente falar de sonhar...’

‘Claro que é! Os sonhos é o que há de mais valioso.’

‘Sonhos não enchem barriga.’

‘Nem de barrigas cheias vive o espírito. Por que sempre que falo dos sonhos você vem com algum problema?!’

‘Porque assim é a realidade: fria, dura e impiedosa.’

‘Se de problemas a realidade vive, mas eu ainda posso sorrir – e é real meu sorriso – significa que existe alguma realidade boa.’

‘E daí?’

‘Como o que me faz sorrir são os sonhos, os sonhos são tão reais quanto qualquer realidade.’

‘Sonhos não constroem ou servem pra esquartejar. Bom é uma espada, uma lança, o corpo de uma bela mulher...’

‘... uma porção de batata frita!’

‘Ha-ha, pois é! E sonhos são apenas úteis quando têm algum propósito, como quando os inventamos pra enganar e conquistar uma mulher.’

‘Não gosto quando me falam da utilidade dos sonhos.’

‘Por que não? Não são úteis?’

‘Dizem que sim: “sem sonhos não se chega a lugar algum”.’

‘Fora ao desejarmos uma mulher, não precisamos dos sonhos pra ir a qualquer lugar...’

‘... porque já chegamos!’

‘... porque, sonhando, ficamos parados e jamais havemos de chegar.’

‘Quando chego ao sonho, já posso sorrir. Sonho, portanto vivo.’

‘Pois viva com os sonhos: eu prefiro minhas batatas!’

‘São todas suas, irmão. Ainda preciso emagrecer!’

quinta-feira, 10 de junho de 2010

No bar com Hera e Afrodite


‘Sabe de que eu to com vontade?!’

‘Não, o que?’

‘Um tira-gosto, um petisquinho’

‘Agora?’

‘Não, amanhã, depois do pôr-do-sol... claro que agora!’

‘Há-há! Muito irônico!’

‘Ok, ok, desculpa, é só...’

‘Sem desculpas! Você sempre faz isso.’

‘Só com quem eu gosto. Você, por exemplo!’

‘Humm, tá certo. Bem, em que tinhas pensado?’

‘Como assim em que?’

‘Pra comer, claro!’

‘Não sei. Bolinhos, talvez? Não tenho fome.’

‘Pra que comer sem fome?’

‘Desde quando só comemos com fome? Olhe ao redor.’

‘Mas quase ninguém está comendo.’

‘Mas quase todos estão bebendo. Por que, então, se não têm sede?’

‘Como nos vestimos sem frio.’

‘Como viajar com preguiça...’

‘... ou voltar sem vontade.’

‘Como o sexo.’

‘Como o casamento?... não!’

‘Claro que sim!’

‘Casar-se sem querer?’

‘Casar-se sem amar!’

‘Impossível!’

‘Impossível é amar um deus promíscuo como seu pai.’

‘Então por que casaram?’

‘Minha querida, das razões pro casamento a mais comum é o medo; a última o amor.’

‘E no meio termo, o que há?’

‘Filhos, educação, tradição, dinheiro... mas, sobretudo, medo.’

‘Sobretudo amar!’

‘Amor é pra quem quer sorrir: eu precisava era me casar.’

‘E ser infeliz?’

‘E estar contente por ter um marido. Você devia fazer o mesmo.’

‘Santa paciência: tenho mais o que fazer do que me preocupar com marido.’

‘O que, por exemplo?’

‘Por exemplo, tenho muito ainda o que amar.’

‘Pra depois se importar com teu marido?’

‘Pra depois continuar amando.’

‘Criança tola, não devia desprezar o homem escolhido por teu pai. Uma dia vais ver como estou certa.’

‘Nesse dia, eu me preocupo. Até lá, porém, preciso ir que o Ares me espera.’

‘Ares? E Hefesto?’

‘Tá lá em casa.’

‘Ah, deixaste o marido em casa. E teu meio-irmão, pra que te espera?’

‘Pra amar. Algo que você talvez desconheça.’

‘Garotinha insolente você, viu? Não vai deixar nem o dinheiro da conta?’

‘Mas não comemos nada.’

‘Mas eu estou com fome.’

‘Você come, você paga.’

‘E prometi ao seu pai levar os bolinhos de queijo que ele adora.’

‘Como ter certeza? Me dá uma garantia.’

‘Não confia em mim?’

‘Se me der uma garantia, eu confio.’

‘Ah, então vá de uma vez! Mas seu pai vai ficar sabendo desses seus encontros furtivos.’

‘Ele já sabe; mas acho que também tem mais com o que se preocupar. Como você, por sinal, deveria fazer.’

‘Blá, blá, blá: já sei, já sei, deveria amar, não é?’

‘Se a carapuça servir... Agora preciso ir. Até logo, querida.’